A incorporação não é um palco de salvação alheia, nem um instrumento de correção do outro. Ela é, antes de tudo, um chamado íntimo, profundo e intransferível: um processo de ajuste da própria alma.
Quando uma entidade se aproxima, não vem para exaltar o médium, nem para lhe conceder autoridade sobre o destino alheio. Vem para educar silenciosamente o espírito que a recebe.
Cada gira, cada ponto é um espelho onde o médium se vê sem máscaras.
O que se manifesta no corpo revela o que ainda precisa ser curado no íntimo.
A espiritualidade não invade o homem para consertar o mundo externo; ela entra para reorganizar o mundo interno.
Corrige posturas, quebra vaidades, confronta incoerências e exige responsabilidade moral.
Quem incorpora não é eleito para julgar caminhos, mas convocado a revisar os próprios passos.
Não se trata de poder, mas de compromisso. Não é dom para exibição, é disciplina para lapidação.
Aqueles que acreditam incorporar para "salvar" os outros ainda não compreenderam a pedagogia do sagrado.
A ajuda que chega ao consulente passa, inevitavelmente, pelo crivo da transformação do médium.
Só há cura verdadeira quando há coerência entre o que se manifesta no rito e o que se vive fora dele.
Incorporar é permitir que o sagrado toque primeiro as próprias feridas. É aceitar ser moldado, corrigido e, muitas vezes, desconstruído.
Quem entende isso caminha com humildade. Quem não entende, confunde espiritualidade com protagonismo.
No fim, a entidade não vem para ajustar a vida dos outros. Ela vem para alinhar a sua. E, quando isso acontece de verdade, o bem transborda naturalmente sem discurso, sem imposição, sem vaidade.
Texto e imagem:
Jefferson Santana @prosa_com_preto_velho
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